Direita, esquerda e a “doutrinação” no ensino
Há algum tempo que observo com alguma preocupação a forma como a educação e, em particular, as universidades passaram a fazer parte da guerra política entre esquerda e direita.
De um lado acusa-se a escola e a universidade de serem espaços dominados pela esquerda, onde existe uma determinada visão ideológica do mundo. Do outro, acusa-se a direita (sobretudo a direita mais radical) de querer condicionar a autonomia das universidades, controlar conteúdos e limitar determinadas áreas de investigação.
Mas talvez este debate esteja a começar pelo lado errado.
A pergunta que me parece mais importante é outra: qual deve ser, afinal, o papel da educação numa sociedade desenvolvida?
Quando a universidade entra na guerra política
Nos Estados Unidos, Donald Trump colocou a chamada cultura woke no centro do debate político e entrou em confronto com algumas das principais universidades norte-americanas. Harvard tornou-se provavelmente o caso mais mediático dessa disputa.
Independentemente de concordarmos ou não com aquilo que acontece dentro das universidades, existe aqui uma questão que me parece essencial: até onde deve um Governo interferir na autonomia de uma universidade?
Uma coisa é exigir transparência, rigor na utilização de dinheiros públicos, liberdade de expressão, qualidade científica e cumprimento da lei. Outra é utilizar o financiamento como instrumento para obrigar uma instituição académica a alinhar com uma determinada visão política.
E isto vale para a direita e para a esquerda.
No Brasil, por exemplo, podemos discordar profundamente das políticas de Lula, mas há um dado que merece reflexão: um homem com um percurso académico muito reduzido colocou, durante os seus primeiros mandatos, o acesso à educação e ao ensino superior no centro do discurso político.
Na Argentina de Javier Milei encontramos praticamente o debate inverso. A redução da despesa pública e a relação do Estado com o financiamento do ensino superior passaram a ser temas centrais. Para mim, fica a dúvida: quando é necessário cortar despesa, deverá a educação ser uma das primeiras áreas a sentir essa pressão?
É precisamente aqui que começo a ter dificuldades com alguns discursos da direita mais radical.
Afinal, o que tem uma parte da direita contra a universidade?
Em Portugal ouvimos frequentemente críticas às universidades e aos professores, acusando-os de “doutrinação de esquerda”.
Será mesmo assim?
Admitamos, por hipótese, que existe uma maior percentagem de professores universitários que se identifica politicamente com a esquerda. Isso significa automaticamente que os alunos são doutrinados?
Tenho muitas dúvidas.
Um aluno universitário é (ou pelo menos deveria ser) alguém capaz de ouvir argumentos, confrontar ideias, estudar diferentes perspectivas e construir as suas próprias conclusões.
Aliás, se quatro ou cinco anos de universidade fossem suficientes para determinar para sempre a orientação política de uma pessoa, teríamos de concluir que a universidade possui um poder de manipulação quase absoluto.
Não acredito nisso.
As pessoas mudam. Trabalham. Criam empresas. Constituem família. Pagam impostos. Conhecem outras realidades. Ganham experiência. E, naturalmente, alteram muitas das suas opiniões ao longo da vida.
É precisamente isso que espero de uma sociedade livre.
Educação como elevador social
Há, porém, um ponto em que tenho poucas dúvidas: a educação continua a ser um dos mais poderosos elevadores sociais que conhecemos.
Hoje podemos encontrar na Internet histórias de jovens que ficaram milionários através de uma aplicação, de um canal de YouTube, das redes sociais ou de uma ideia lançada no momento certo.
Mas isso são exceções.
Para a esmagadora maioria das pessoas, estudar, adquirir competências e obter qualificações continua a ser uma das formas mais sólidas de melhorar as suas oportunidades profissionais e sociais.
E é aqui que encontro outra contradição.
Se defendemos o mérito, o trabalho, a responsabilidade individual e a possibilidade de cada pessoa melhorar a sua condição de vida, então dificilmente podemos desvalorizar a educação. Pelo contrário: a educação é precisamente uma das ferramentas que permite transformar mérito e trabalho em mobilidade social.
Sem acesso ao conhecimento, a igualdade de oportunidades torna-se uma expressão bonita, mas pouco mais do que isso.
Universidade não pode significar pensamento único
Isto não significa que as universidades estejam acima da crítica.
Não estão.
Uma universidade onde determinadas opiniões não possam ser discutidas, onde professores ou estudantes tenham receio de contrariar a posição dominante ou onde determinadas ideias sejam rejeitadas antes sequer de serem debatidas está a falhar uma parte importante da sua missão.
Mas combater um eventual pensamento único substituindo-o por outro pensamento único não resolve absolutamente nada.
Uma universidade não deve ser de esquerda.
Também não deve ser de direita.
Deve ser um espaço onde a esquerda possa ser questionada pela direita, a direita pela esquerda e ambas pela ciência, pelos factos e pelo pensamento crítico.
É isso que deveria distinguir uma universidade de uma estrutura partidária.
E em Portugal?
Há algo particularmente curioso no nosso debate.
Falamos frequentemente de alegada “doutrinação de esquerda” nas universidades potuguesas, mas depois olhamos para a sociedade portuguesa, para os resultados eleitorais e para a composição do próprio Parlamento e percebemos que os cidadãos não parecem sair das universidades programados para votar todos da mesma maneira.
Ainda bem.
Porque esse é precisamente o objetivo.
A universidade não deveria dizer a alguém o que pensar. Deveria ensinar-lhe como pensar, como questionar e como fundamentar aquilo que pensa.
Podemos (e devemos) discutir currículos, financiamento, qualidade do ensino, liberdade académica, produtividade científica, empregabilidade, investigação e a própria ligação das universidades à economia.
Mas transformar a educação numa batalha permanente entre esquerda e direita parece-me um enorme erro.
Porque, no final, governos passam.
Partidos sobem e descem.
Ideologias mudam.
O conhecimento fica.
Talvez seja essa a reflexão que nos está a faltar.
Vamos refletir!


.jpeg)
Comentários