Benfica: os primeiros meses da nova época


 Já passaram os primeiros meses desta nova época e parece-me uma boa altura para fazer um primeiro balanço. Não definitivo (porque no futebol tudo muda muito depressa), mas suficiente para perceber aquilo que me agrada, aquilo que me preocupa e, sobretudo, aquilo que espero deste Benfica.

Começo por um ponto em que concordo com Marco Silva: há erros que simplesmente não podem acontecer. Falhas como as que vimos frente ao FC Porto não são compatíveis com uma equipa que pretende lutar por títulos e assumir-se como candidata em todas as competições.

Da mesma forma, nunca deveríamos ter empatado com o Académico de Viseu, na primeira jornada em casa, mesmo tendo em conta o facto de o estádio estar sem adeptos. Uma equipa como o Benfica tem de saber resolver este tipo de jogos.

Depois, naturalmente, também há momentos que deixam sinais muito positivos.

A vitória em Milão foi importante, não apenas pelo resultado, mas pela confiança que pode transmitir à equipa. E sair do Dragão com uma derrota não deve ser desvalorizado. Há campos onde, antes de se jogar bem, é preciso saber competir.

Convém, porém, não entrarmos nos tradicionais exageros do futebol português: não seríamos campeões por ganhar no Dragão, tal como não deixamos de poder ser campeões por causa de uma derrota ou de um resultado menos conseguido. O campeonato é uma maratona e decide-se pela regularidade.

 

A arbitragem e o espetáculo

Sobre a arbitragem, pouco mais há a dizer que já não tenha sido dito vezes sem conta.

Continuo sem perceber por que razão os chamados "senhores de negro" insistem tantas vezes em transformar-se em protagonistas de um espetáculo que deveria pertencer aos jogadores.

Há uma coisa que parece demasiado simples, mas que muitas vezes é esquecida: quanto melhor for o espetáculo, maior será o valor do próprio futebol português.

Melhores jogos significam mais público, melhores audiências, maior interesse comercial, patrocinadores mais valorizados e, no final, mais dinheiro para todos.

Todos ganham.

Ou deveriam ganhar.

 

Há muito de positivo neste Benfica

Apesar das críticas, há vários aspetos que me deixam satisfeito nestes primeiros meses.

Desde logo, a dinâmica introduzida por Marco Silva. Vejo uma equipa com outra intenção, mais dinâmica e, sobretudo, com vontade de jogar futebol.

E isso leva-me ao segundo ponto: o Benfica apresenta, na generalidade, um futebol atrativo. Naturalmente, ainda existem aspetos a corrigir e momentos em que a equipa perde algum controlo, mas prefiro sempre uma equipa que procure assumir o jogo a uma equipa permanentemente calculista e receosa.

Também não podemos ignorar a força económica e comercial do clube, nomeadamente através do acordo com a Adidas, que continua a demonstrar aquilo que o Benfica representa no mercado português.

Depois existe algo que transcende qualquer treinador ou presidente: a dimensão do clube.

Os 20 anos do projeto do Seixal são um bom exemplo disso. Independentemente das diferenças entre dirigentes e dos momentos políticos vividos dentro do clube, pareceu-me igualmente positivo ver Rui Costa reconhecer o trabalho realizado anteriormente, incluindo o contributo de Luís Filipe Vieira para o desenvolvimento daquela infraestrutura.

Um clube grande também se constrói reconhecendo aquilo que foi bem feito no passado.

 

O Benfica também tem de saber defender-se

Aqui tenho uma posição muito clara: considero que o Benfica deve ser mais vocal institucionalmente quando sente que está a ser prejudicado.

Sei que Rui Costa não tem propriamente um perfil de confronto permanente e, na verdade, também não gostaria de ver o Benfica transformar-se num clube que passa a semana a falar de arbitragens.

Mas existe uma diferença entre criar ruído e defender os interesses do clube.

Seja na arbitragem, seja na discussão sobre a centralização e distribuição dos direitos televisivos, o Benfica tem de fazer valer o peso que possui no futebol português.

Não significa ameaçar tudo e todos. Significa simplesmente não aceitar determinadas situações em silêncio.

 

O problema maior continua a ser o futebol português

E aqui chegamos a uma questão que ultrapassa largamente o Benfica.

Há coisas no nosso futebol que continuam difíceis de compreender.

Temos relvados que, em determinados estádios, continuam muito abaixo do nível exigível a uma competição profissional. Temos jogos com assistências reduzidíssimas e uma diferença enorme entre aquilo que conseguem mobilizar Benfica, Sporting e FC Porto e aquilo que acontece no restante campeonato.

Em muitos jogos, basta olhar para as bancadas para perceber o problema.

É difícil vender internacionalmente um produto quando, dentro do próprio país, existem estádios praticamente vazios.

Precisamos de melhorar o espetáculo, os horários, os relvados, a promoção das partidas e a relação dos clubes com os adeptos. Caso contrário, continuaremos eternamente a discutir a distribuição das receitas de um produto que não conseguimos fazer crescer.

 

A verdadeira dimensão do Benfica

No meio de todas estas discussões, existe algo que continua impressionante.

Na Luz continuamos regularmente acima dos 60 mil espectadores.

Isso não acontece por acaso.

É a demonstração da força social do Benfica e da ligação que existe entre o clube e os seus adeptos. Podemos discutir títulos, treinadores, presidentes ou modelos de gestão, mas a dimensão popular do Benfica continua praticamente inalterável.

E depois existem as audiências televisivas.

Mesmo quando o Benfica joga para o campeonato e, no mesmo dia, um rival disputa uma partida da Liga dos Campeões, os números mostram repetidamente a capacidade que o Benfica possui para atrair público.

Esse fator deveria ser levado muito a sério quando se discute o futuro económico do futebol português e, particularmente, a centralização dos direitos televisivos.

 

O meu balanço

No geral, estou satisfeito com estes primeiros meses da época.

Naturalmente, há muito para melhorar. O que aconteceu no Dragão, independentemente do resultado, deve servir para retirar conclusões e não pode repetir-se em determinados aspetos do jogo.

Mas também não vale a pena transformar cada resultado menos conseguido numa crise.

Financeiramente, as contas parecem continuar positivas, mesmo admitindo que, por vezes, exista alguma da tradicional "criatividade" contabilística que já faz parte do futebol moderno.

Desportivamente, vejo bases para construir uma boa época.

E, por isso, as minhas expectativas são elevadas.

 

Para o Benfica, esta época tem de significar lutar seriamente pelo campeonato e por todas as competições nacionais. Na Europa, considero perfeitamente razoável exigir uma campanha consistente e, na Liga Europa, chegar pelo menos aos quartos-de-final.

Não podemos começar uma época no Benfica satisfeitos apenas por "fazer uma boa campanha".

A dimensão do clube obriga a mais.

 

Espero também que Rui Costa tenha capacidade para gerir o plantel, proteger a equipa e, sobretudo, que não se deixe condicionar ou empurrar para o silêncio quando a pressão aumentar.

Porque no Benfica haverá sempre pressão.

E ainda bem.

 

Quem representa um clube desta dimensão tem de saber viver com ela.

Agora é continuar a trabalhar, corrigir aquilo que está mal e potenciar aquilo que já está a funcionar.

A época ainda vai no início e há muito futebol pela frente.

 

Viva o Benfica!


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