Rui Costa, este é o ano em que já não há desculpas
O Benfica parece jogar melhor com praticamente os mesmos jogadores da época passada. Se assim é, torna-se inevitável olhar para trás e perguntar onde estiveram os erros. Na escolha dos treinadores? Na gestão do plantel? Nos negócios? Rui Costa recebeu um novo e forte mandato dos sócios. Agora falta aquilo que verdadeiramente conta no futebol: ganhar.
Este tem de ser o ano de Rui Costa. Não apenas mais uma época em que o Benfica entra para discutir títulos, mas aquela em que o presidente terá de transformar investimento, estabilidade e confiança eleitoral em resultados concretos.
O objetivo, para mim, é claro: ser campeão nacional, ganhar a Taça de Portugal e realizar uma campanha europeia verdadeiramente relevante, idealmente chegando, pelo menos, às meias-finais de uma competição europeia.
Este ano já não pode haver desculpas.
E também não podemos continuar a fechar os olhos a determinados erros de gestão cometidos nos últimos anos.
Há, desde logo, uma pergunta que merece ser feita. Olhando para o Benfica desta época, vemos uma equipa que joga melhor, procura mais o golo, chega com maior frequência à área adversária e parece muito mais confortável com bola. No entanto, grande parte dos jogadores já estava no plantel em 2025/26.
Na defesa, uma das alterações mais visíveis foi a entrada de Lenglet. Mas será possível explicar uma transformação coletiva apenas pela troca de Otamendi por Lenglet?
Naturalmente que não.
E é precisamente aí que começa a discussão.
Três treinadores depois, talvez o problema nunca tenha sido o scouting
A estrutura do futebol do Benfica merece ser analisada. Nos últimos anos, Rui Costa mudou várias vezes de treinador, recorrendo a perfis bastante diferentes entre si.
Quando uma organização altera repetidamente a liderança técnica, torna-se legítimo questionar se o problema está apenas nos jogadores contratados ou se começa antes: na definição do perfil de treinador que o clube realmente procura.
Roger Schmidt, Bruno Lage, José Mourinho e, agora, Marco Silva representam ideias de jogo, métodos de trabalho e formas de liderança muito distintas.
Com Schmidt, considero que o Benfica errou ao renovar demasiado cedo e voltou a errar quando demorou a tomar uma decisão já depois de os sinais de desgaste serem evidentes. Depois regressou Bruno Lage, um treinador que conhecia bem o clube, mas cuja primeira passagem também terminara de forma problemática.
Foram decisões que custaram tempo. E, no futebol, três ou quatro jogos mal geridos podem ser suficientes para comprometer uma época ou perder um campeonato.
A chegada de José Mourinho representou uma mudança importante. Mesmo já não sendo o treinador mais revolucionário do futebol europeu, trouxe experiência, conhecimento profundo do jogo e, sobretudo, uma reconhecida capacidade de gestão de balneário. A sua carreira ao mais alto nível, nomeadamente em Inglaterra, deu-lhe uma autoridade e uma experiência difíceis de replicar.
Mas é com a entrada de Marco Silva, esta época, depois de Mourinho, que se começa a notar uma transformação mais evidente na forma como o Benfica se apresenta em campo. A equipa joga com maior intensidade, circula melhor a bola, chega à área com mais critério e parece, sobretudo, ter uma identidade mais clara.
E talvez esteja precisamente aí uma das explicações para vermos praticamente os mesmos jogadores apresentarem um rendimento tão diferente.
Um plantel não é apenas um conjunto de ativos avaliados em milhões de euros. É um grupo de pessoas, com egos, expectativas, frustrações e ambições. Saber gerir um balneário é também saber potenciar talento.
Se Marco Silva está a conseguir retirar mais rendimento de muitos dos mesmos jogadores, então é legítimo perguntar se, durante demasiado tempo, o principal problema do Benfica esteve apenas no plantel ou também nas escolhas feitas para o liderar.
Rui Costa tem agora um mandato reforçado
Há igualmente uma diferença importante fora das quatro linhas.
Rui Costa foi reforçado eleitoralmente, com cerca de 65% dos votos, e tem agora ao seu lado Mário Branco.
Muitos criticam Mário Branco pelas suas ligações ou simpatias clubísticas anteriores. Parece-me uma discussão secundária. O que deve ser avaliado é a sua competência profissional, o conhecimento do mercado e o trabalho desenvolvido ao longo da carreira, nomeadamente em estruturas como Estoril e Famalicão.
No futebol profissional não se deve contratar alguém por ser benfiquista, portista ou sportinguista. Deve contratar-se competência.
E é essa competência que agora tem de ser demonstrada.
A diferença que já se começa a notar no futebol do Benfica não deverá ser apenas técnica. Pode existir também uma mudança na liderança, na gestão de pessoas e na exigência colocada sobre jogadores que, em determinados momentos, pareceram demasiado confortáveis.
Mas depois chegamos à questão inevitável: os negócios.
Há boas vendas. E depois há casos difíceis de explicar
Não critico uma venda apenas porque sai um jogador de que gosto. Também sou gestor e percebo perfeitamente que um clube como o Benfica tem de comprar, desenvolver e vender ativos.
A saída de João Neves, por exemplo, pode ser analisada dentro dessa lógica.
Também compreendo o empréstimo de um jogador jovem quando precisa de minutos. Se existe possibilidade de jogar regularmente numa liga europeia, evoluir e regressar mais preparado — ou valorizar-se para uma futura venda — o empréstimo pode fazer todo o sentido.
Com António Silva, consigo igualmente compreender uma eventual venda. O que já me custa mais aceitar é que o Benfica tenha chegado a uma situação em que a renovação não foi possível. Nesse caso, antes de culpar o jogador, devemos olhar para dentro.
Se perdemos um ativo formado no Seixal porque não conseguimos encontrar condições para prolongar a ligação, alguma coisa terá falhado do nosso lado.
Também houve negócios que considero muito bem feitos. Receber cerca de 35 milhões de euros por um lateral, por exemplo, é uma operação que deve ser valorizada, sobretudo quando olhamos para o mercado e vemos outros clubes venderem jogadores de enorme importância desportiva por valores não muito superiores.
Há que saber distinguir uma venda desportivamente dolorosa de uma má venda. Não são necessariamente a mesma coisa.
Depois existem casos que continuo sem compreender completamente.
Richard Ríos é um deles. Bruma é outro. E, recuando mais alguns anos, encontramos situações como Meité e outras decisões difíceis de explicar.
Não questiono que a administração tenha conseguido, globalmente, equilibrar compras e vendas. Isso é importante para a sustentabilidade do Benfica. Mas equilíbrio contabilístico não significa automaticamente coerência desportiva.
No caso de Richard Ríos, continuo com dúvidas sobre tudo o que aconteceu. Se um jogador deixa de fazer parte do projeto, deve existir uma estratégia clara para o ativo. França? Itália? Outro campeonato competitivo? Pode haver circunstâncias que desconhecemos, naturalmente, mas colocar um jogador nas Arábias sem uma venda definitiva levanta questões.
Até porque aquele mercado já não parece ter a capacidade financeira praticamente ilimitada de há alguns anos e o atual contexto internacional poderá torná-lo ainda mais imprevisível.
O Benfica precisa de vender. Mas precisa, acima de tudo, de saber por que vende, quando vende e como substitui aquilo que vende.
Palhinha, Durán, Kaminski e o risco que faz parte do futebol
Do lado das entradas também não pretendo cair na crítica automática.
Não critico a chegada de Palhinha. Pelo contrário: acredito que pode vir a revelar-se extremamente importante. Experiência, conhecimento competitivo e personalidade podem ter um peso enorme numa equipa que pretende ser campeã.
Também aceito a utilização de empréstimos como instrumento de mercado. Permitem perceber se determinado jogador se adapta ao clube, ao treinador e ao futebol português antes de ser assumido um investimento definitivo.
Naturalmente, existem riscos. Tenho, por exemplo, algumas dúvidas em relação a Durán. Mas isso faz parte do futebol.
Quanto a Kaminski, também aceito a contratação. Existe uma nova estrutura de scouting e parto do princípio de que quem acompanha o jogador durante meses viu características que nós, adeptos, talvez ainda não tenhamos conseguido observar.
É precisamente por isso que existe scouting profissional.
Não se pode exigir que todas as contratações resultem. O que se pode exigir é que exista uma ideia, um perfil e coerência entre treinador, estrutura e mercado.
E talvez seja essa a grande oportunidade desta época.
O Benfica parece, finalmente, ter condições para construir alguma continuidade. Tem um presidente recentemente legitimado pelos sócios, uma estrutura de futebol reformulada, um treinador com enorme experiência e um plantel que demonstra capacidade para jogar melhor do que mostrou anteriormente.
Agora é preciso transformar tudo isso em títulos.
Rui Costa já teve tempo. Já teve investimento. Já teve treinadores. Já vendeu e comprou jogadores. Já ganhou eleições e recebeu novamente a confiança dos benfiquistas.
Agora tem de ser campeão.
Pelo Benfica. Pelos adeptos. Pelos sócios que votaram nele. E também pelo próprio Rui Costa.
Porque, no final, foi para isso que os benfiquistas o escolheram para liderar o clube.


.jpeg)
Comentários